Crônica de um nerd procrastinador

Ligo o computador para montar a prova do bimestre.
Nossa! Esta Área de Trabalho está muito bagunçada, arrumarei.
Péraí, ainda não fiz o backup da semana, farei agora.
Oxe… Que lenta a transmissão de arquivos, deixa eu fazer uma varredura.
Vixe, o HD está todo desfragmentado, melhor formatar.
Putz, posso aproveitar e já colocar um dual boot, né?

7 horas depois: caralho!
Meia noite e ainda não fiz a prova…

São Paulo, 11 de junho de 2016

Água corrente

A gata quer água corrente. Sequer olha para sua tigelinha sempre cheia de água fresca. Vai ao tanque. Discreta? Jamais. Miados e miados depois, seu escravo, aquele humano que cuida dela, aparece para ver do que se trata. A cena é autoexplicativa. Explícita. “Abra a porra da torneira e saia daqui”. Resta apenas uma dúvida: satisfaço este desejo e foda-se o planeta ou deixa-a lá, regurgitando no chão, temendo sua morte lenta e dramática por sede e inanição.

Nem hesito: foda-se o planeta.

São Paulo, 01 de novembro de 2015

Carta de divórcio (ao cigarro, é claro)

Prezado cigarro,

Enquanto dou o derradeiro trago – imaginário, pois você não está mais aqui – inicio esta missiva. Olho para o chão e observo: última bituca (talvez penúltima). Encarando-me com olhos não de presente, mas passado. Acabou comigo e meu ego. Deixe o ponto final para mim. Suplico.

Ciente da minha incapacidade de resistir, optei pelo mais drástico. O fim registrado, em cartório. Extrajudicialmente notifico-te, meu pedido de divórcio. (Ir)revogável.

Depois de tanta fumaça, conversas intermináveis e trovões, os amarelos dentes da primavera viraram, do avesso. E a brisa boa, antes tesão, agora é engasgo. Desce ruim.

Tentei parar, mas nem a pinga, nossa companheira de prosa e tédio, deu conta da ausência. Ter-te em minha boca era consolo de tudo. De todos.

Teu tabaco, ali, com tantas outras substâncias químicas, ludibriava-me. E nem a massiva advertência, no teu rótulo, alertando-me da finitude, impediu-me de tragar-te até o fim. De mim.

Teu cheiro então, é foda. Não sai das mãos. Do corpo. Das roupas. Não tem banho que tire. E sei, por outros vícios, que cheiro fica. Impregna. Fecho os olhos, respiro fundo e bingo. Sinto.

Disseram-me na sarjeta para substituir um vício por outro. Ocupar aquele espaço, vazio. Relutei, confesso. Mas tem jeito? Morro aos poucos por ti e à partir de amanhã, caso aceite esse divórcio sem litígio, partirei, em busca de novos delírios.

São Paulo, 19 de setembro de 2015

Uma dor

 

Mal o sinal soara e os alunos estavam em suas salas.
Menos ele.
Vinha decidido em minha direção.
Tia, tô com uma dor, liga pra minha mãe.
Dor onde? Dor de cabeça?
Barriga. É dor de barriga.
Respire, vá com calma ao banheiro, lave o rosto e venha até minha sala que tentarei falar com alguém na sua casa.
Uma vizinha viria buscá-lo, era a segunda opção de emergência no prontuário.
Tia, voltei.
Sua vizinha vem te buscar logo logo, você está melhor?
Não, tia. Tem que ser minha mãe. Ela tem que me buscar. Minha mãe.
Ela está trabalhando, não tem como vir agora.
Se não for minha mãe, tia, não precisa.
Você está passando mal ou não?
Pausa.
Aqueles olhos encheram-se d’água.
É saudade da minha mãe, tia. Eu quero minha mãe. Quero abraçar ela.
Pedi um minuto.
Dois.
Três.
Fui informada que o aluno morava com a avó.
Pelos relatos mais detalhados, vida dura.
Consegui falar com a mãe.
Expliquei a situação e passei o telefone.
Com os olhos cerrados, segurando uma lágrima que não consegui, ele apenas ouviu a mãe no outro lado da linha.
Ao fim, suplicou.
Tô com saudade, mãe. É só isso. Vem me buscar. Quero te ver. Tô morrendo de saudade.
A conversa parecia ter encerrado e assumi novamente a ligação.
A mãe, agora com voz embargada, garantiu estar à caminho.
Urgência é urgência.
E aquela dor, na tenra idade, não era dor.
Era amor.
De mãe.
Saudade.

São Paulo, 14 de agosto de 2015

Só um passinho

I have a dream. Eu tenho um sonho. Sonho em descobrir quem foi o cobrador gênio que proferiu pela primeira vez a já célebre (e enfadonha) frase “só um passinho”. Sonho encontrá-lo por aí. De preferência, dentro de um ônibus bem lotado. No calor. Chovendo. Com as janelas fechadas. Cheio de gente de saco cheio e cheia de sacolas.

“Só um passinho.”

Essa frase brilhante se espalhou com tamanha destreza que chego a acreditar que estes bípedes portadores de síndrome do pequeno poder têm razão e, de fato, ônibus são como coração de mãe: sempre cabe mais um.

“Só um passinho.”

Porque, sem dúvidas, nos recusamos a dar mais um passinho porque não queremos trocar de encoxadas. Convenhamos: temos um baita trabalho pra conseguir encoxar alguém (ou ser encoxado) e, quando a intimidade está próxima de chegar, gritam a bendita frase, como se fôssemos uma quadrilha de festa junina na hora de trocar de par. Assim não dá. Relacionamentos líquidos têm limites: queremos vínculos!

“Só um passinho.”

Afinal, nosso objetivo secundário (lembrando a prioridade das encoxadas) é atrapalhar a passagem de outros passageiros. É maldade mesmo. Freud disse. Nietzsche também. Somos maus, pô. É super possível abrir espaço para aquele colega que pretende chegar à porta nos dois segundos que lhe restam, após perceber segundos antes da parada que (creiam!) chegou seu ponto. Se não der para passar pelo lado, vai por cima, “só um pulinho”, talvez. Ou por baixo, abre as pernas, quem sabe rola um chamego? Super possível, mas somos inerentemente maus. Queremos atrapalhar todo mundo mesmo.

“Só um passinho.”

Até porque, não importa se fomos até o ponto final para viajar confortavelmente. Nossa obrigação ética (moral e o escambau) é abrir alas para o amiguinho que pegou o bonde andando e quer sentar na janelinha. “Só mais um degrau pra fechar a porta”, diz, sorrindo, o simpático motorista. Homem de bem (mulheres são raras, por que será?), jamais andaria com as portas abertas. Preza pela nossa segurança. Pena que no degrau de cima já encontram-se 234 pessoas (talvez 233, estava meio atordoado) e não dá pra subir. “Só saio quando conseguir fechar a porta”. Mas não é um gentleman este motorista? Cabe aos passageiros se entucharem só mais um pouquinho. Quem precisa de dignidade?

São Paulo, 05 de novembro de 2013

O bandido que há dentro de você

Madrugada de sábado para domingo. Uma hora da manhã. Tempo agradabilíssimo. Perfeito para uma noite de amor. O fato do ônibus estar vazio, junto com Lenine que soava em seus ouvidos, fez com que Fulano sentisse-se bem ao descer no ponto próximo à sua casa.

Mesmo ébrio, a noite silenciosa não era o suficiente para acalmá-lo. Portanto, o passo foi apressado, já que a cidade neste horário é tudo, menos segura. Não dá para bobear e admirar a lua enquanto passeia pelas ruas da periferia.

Como é difícil um texto transmitir a sensação de susto, recorramos ao recurso mais estapafúrdio possível: a explicação. Silêncio! Imaginemos um susto. Isso, um susto, daqueles de dar gritinho e ficar mudo em seguida. Isso! Quase! Susto! Imaginação trabalhando! Assuste-se! Lembremos na menina do “O Exorcista” e imaginemos ela te acordando, numa manhã de domingo, com beijinhos. Isso!

Foi mais ou menos essa a sensação de Fulano ao ouvir o derrapar das rodas do carro de polícia que surgiu do seu lado naquele instante. Um pulo. Talvez um gritinho, que o narrador jamais assumiria por motivos óbvios.

“Na parede! Mãos pra cima! Rápido!”

Como se fosse fácil achar a parede.

Fulano cambaleou, ainda tonto e assustado com aquela abordagem peculiar. Encostou-se em algo que lhe pareceu a parede. Levantou as mãos, como quem quer ser visto por um conhecido distante.

“Virado pra parede, rapaz! Mãos na parede!”

Talvez tenha sido as armas dos três policiais que saltaram do carro que tenham abalado Fulano a ponto de não se lembrar da posição padrão de enquadro. Obviamente, o fato das três armas estarem apontadas em sua direção era um agravante.

Virou-se. Quase imediatamente, suas pernas, que não estavam abertas em mais do que 35 ou 40 graus, foram violentamente chutadas para os lados. Não fossem suas limitações físicas, talvez tivesse atingido o espacate após aquela intervenção. Mas a natureza é ainda mais cruel com os sedentários. E aquela abertura – de no máximo 90 graus – lhe pareceu uma tortura medieval.

Pareciam duzentas mãos o revistando. Em todos os cantos do corpo foi tocado. Às vezes, apertado. O susto de Fulano pareceu reforçar a agressividade do policial.

“Documento!”, gritou aquele que parecia ser o único policial com o dom da fala, enquanto virou Fulano para frente com um puxão pelo ombro.

“Posso pegar na carteira? Está no bolso de trás”, aparentemente Fulano estava com medo.

“Claro! Quer que eu pegue pra você, moleque?”.

“Aqui está”.

Uma pequena lanterna foi acionada e durante alguns segundos, Fulano tentou desvendar o pensamento do policial pelo semblante feito durante a checagem do documento. Em vão, sem expressões.

“De onde você veio? Pra onde está indo?”, indagou, passando o RG para o outro policial, que foi em direção à viatura em seguida.

“Estou vindo de um show, Sr. Souza, e vou para…”

“Como sabe meu nome!?”, dessa vez o grito pareceu superar todos os anteriores.

“Está escrito no seu peito… É que… Você…”, o medo pareceu ser substituído por um receio.

“Está gaguejando por quê? Tá em choque?”

“Na verdade, um pouco. Me assustei com vocês. Convenhamos que a abordagem foi meio agressiva…”

“O quê!? Como assim a abordagem foi agressiva!?”

“Continua sendo, eu diria. Vocês param o carro como se eu fosse um bandido. Quer dizer, talvez seja, mas vocês pareciam ter certeza. Essa gritaria toda. Desnecessário. Mas enfim, não precisamos discutir isso. Tudo certo com meu documento?”

O policial que havia entrado na viatura, voltou com o RG e fez um sinal afirmativo com a cabeça para Souza, que pegou o documento e repassou para Fulano.

“Escute aqui, rapaz”, pela primeira vez, o tom do policial foi mais ameno, “você parece espertinho, mas fica ligeiro e vá pra casa, porque a quebrada está perigosa não dá pra ficar passeando na madrugada”.

“Posso ir então?”

“Não foi o que eu disse?”

“Ok”, disse Fulano, já saindo da frente dos policiais e dirigindo-se à sua casa, que estava a poucos metros dali. “Bom serviço”, disse, olhando pra trás rapidamente, assim que saiu da linha da viatura.

Souza enxergou uma ligeira ironia naquele “bom serviço”, mas não tinha tempo para desperdiçar com pensamentos. Quem sabe o próximo tem menos paciência e justifica aquele tiro na cabeça reconfortante?

São Paulo, 06 de janeiro de 2013

Juramento do Professor Doutor

Eu juro solenemente descontar tudo que sofri no mestrado e doutorado em meus alunos de graduação. Não que eles mereçam, mas simplesmente porque eu quero.

Eu juro solenemente enviar um e-mail com o texto (de 200 páginas) poucas horas antes da aula e, após perguntar se os alunos leram e ouvir o planejado som do silêncio, fazer cara de Willy Wonka.

Eu juro solenemente pedir uma resenha crítica por semana que, com o mínimo de 20 laudas (se não sabe o que é lauda, vá estudar, você precisa de vocabulário acadêmico), coloque 13 autores para debater, apresente problemática, hipótese e respostas para todas as questões do universo.

Eu juro solenemente deixar uma matriz (toda arregaçada), na quarta geração de xexérox (xérox da xérox da xérox da xérox), praticamente ilegível, na pasta da copiadora, junto com 218 outros textos. Afinal, pra quê facilitar?

Eu juro solenemente não passar lista de presença, mas, reparar todos os alunos que faltaram na minha aula e perguntar no dia seguinte as causas, motivos, razões e circunstâncias que os levaram a serem tão desrespeitosos.

Eu juro solenemente continuar sem aprender como ligar um projetor e, se possível, usar transparências xexelentas que remetam ao período paleolítico.

Enfim, juro solenemente fazer jus aos meus títulos.

São Paulo, 17 de agosto de 2012