élith

a poesia na tua boca era luxúria
o coturno no teu pé era trator
a tatuagem pelo corpo, cicatriz
o cabelo colorido tua marca
a rebeldia no olhar, ação
o sorriso imensidão
a obra, tesão

(in)tensa existência
gratidão

abu

nos dizia
em pêsames
que morte boa
não havia

fadados estávamos
ao leito (relento)
canos nas narinas
aparelhos de sobrevida
sofrimento

mas ele
o próprio
ao morrer
nos provoca
numa ironia atroz
certeira:

morre dormindo
em paz

São Paulo, 28 de abril de 2015

fez-se gênero

posto de pronto onde não pertencia
fez póstumo sua escolha
o nome, imposto, desfez
em vez de definir-se
auto destituiu-se
de posições e perturbações

não tratava-se de trejeito
era íntimo e explícito
no armário não cabia
sem disfarce ou demagogia
muito além do que parecia

a violência fez sua parte
aliou-se: família, vizinhos, o mundo
foi porrada de todos os lados
genitálias sob holofotes
seqüelas inevitáveis
dores intermináveis
mas insistiu, porra!

bastada de humilhações
estancou o sangue
empoderando-se

da incerta convicção
estava certa da transformação
o dia em que sua fantasia
deixaria de ser novidade
pura e bela realidade
aceita sem disparidade

São Paulo, 10 de abril de 2014