O bandido que há dentro de você

Madrugada de sábado para domingo. Uma hora da manhã. Tempo agradabilíssimo. Perfeito para uma noite de amor. O fato do ônibus estar vazio, junto com Lenine que soava em seus ouvidos, fez com que Fulano sentisse-se bem ao descer no ponto próximo à sua casa.

Mesmo ébrio, a noite silenciosa não era o suficiente para acalmá-lo. Portanto, o passo foi apressado, já que a cidade neste horário é tudo, menos segura. Não dá para bobear e admirar a lua enquanto passeia pelas ruas da periferia.

Como é difícil um texto transmitir a sensação de susto, recorramos ao recurso mais estapafúrdio possível: a explicação. Silêncio! Imaginemos um susto. Isso, um susto, daqueles de dar gritinho e ficar mudo em seguida. Isso! Quase! Susto! Imaginação trabalhando! Assuste-se! Lembremos na menina do “O Exorcista” e imaginemos ela te acordando, numa manhã de domingo, com beijinhos. Isso!

Foi mais ou menos essa a sensação de Fulano ao ouvir o derrapar das rodas do carro de polícia que surgiu do seu lado naquele instante. Um pulo. Talvez um gritinho, que o narrador jamais assumiria por motivos óbvios.

“Na parede! Mãos pra cima! Rápido!”

Como se fosse fácil achar a parede.

Fulano cambaleou, ainda tonto e assustado com aquela abordagem peculiar. Encostou-se em algo que lhe pareceu a parede. Levantou as mãos, como quem quer ser visto por um conhecido distante.

“Virado pra parede, rapaz! Mãos na parede!”

Talvez tenha sido as armas dos três policiais que saltaram do carro que tenham abalado Fulano a ponto de não se lembrar da posição padrão de enquadro. Obviamente, o fato das três armas estarem apontadas em sua direção era um agravante.

Virou-se. Quase imediatamente, suas pernas, que não estavam abertas em mais do que 35 ou 40 graus, foram violentamente chutadas para os lados. Não fossem suas limitações físicas, talvez tivesse atingido o espacate após aquela intervenção. Mas a natureza é ainda mais cruel com os sedentários. E aquela abertura – de no máximo 90 graus – lhe pareceu uma tortura medieval.

Pareciam duzentas mãos o revistando. Em todos os cantos do corpo foi tocado. Às vezes, apertado. O susto de Fulano pareceu reforçar a agressividade do policial.

“Documento!”, gritou aquele que parecia ser o único policial com o dom da fala, enquanto virou Fulano para frente com um puxão pelo ombro.

“Posso pegar na carteira? Está no bolso de trás”, aparentemente Fulano estava com medo.

“Claro! Quer que eu pegue pra você, moleque?”.

“Aqui está”.

Uma pequena lanterna foi acionada e durante alguns segundos, Fulano tentou desvendar o pensamento do policial pelo semblante feito durante a checagem do documento. Em vão, sem expressões.

“De onde você veio? Pra onde está indo?”, indagou, passando o RG para o outro policial, que foi em direção à viatura em seguida.

“Estou vindo de um show, Sr. Souza, e vou para…”

“Como sabe meu nome!?”, dessa vez o grito pareceu superar todos os anteriores.

“Está escrito no seu peito… É que… Você…”, o medo pareceu ser substituído por um receio.

“Está gaguejando por quê? Tá em choque?”

“Na verdade, um pouco. Me assustei com vocês. Convenhamos que a abordagem foi meio agressiva…”

“O quê!? Como assim a abordagem foi agressiva!?”

“Continua sendo, eu diria. Vocês param o carro como se eu fosse um bandido. Quer dizer, talvez seja, mas vocês pareciam ter certeza. Essa gritaria toda. Desnecessário. Mas enfim, não precisamos discutir isso. Tudo certo com meu documento?”

O policial que havia entrado na viatura, voltou com o RG e fez um sinal afirmativo com a cabeça para Souza, que pegou o documento e repassou para Fulano.

“Escute aqui, rapaz”, pela primeira vez, o tom do policial foi mais ameno, “você parece espertinho, mas fica ligeiro e vá pra casa, porque a quebrada está perigosa não dá pra ficar passeando na madrugada”.

“Posso ir então?”

“Não foi o que eu disse?”

“Ok”, disse Fulano, já saindo da frente dos policiais e dirigindo-se à sua casa, que estava a poucos metros dali. “Bom serviço”, disse, olhando pra trás rapidamente, assim que saiu da linha da viatura.

Souza enxergou uma ligeira ironia naquele “bom serviço”, mas não tinha tempo para desperdiçar com pensamentos. Quem sabe o próximo tem menos paciência e justifica aquele tiro na cabeça reconfortante?

São Paulo, 06 de janeiro de 2013