Só um passinho

I have a dream. Eu tenho um sonho. Sonho em descobrir quem foi o cobrador gênio que proferiu pela primeira vez a já célebre (e enfadonha) frase “só um passinho”. Sonho encontrá-lo por aí. De preferência, dentro de um ônibus bem lotado. No calor. Chovendo. Com as janelas fechadas. Cheio de gente de saco cheio e cheia de sacolas.

“Só um passinho.”

Essa frase brilhante se espalhou com tamanha destreza que chego a acreditar que estes bípedes portadores de síndrome do pequeno poder têm razão e, de fato, ônibus são como coração de mãe: sempre cabe mais um.

“Só um passinho.”

Porque, sem dúvidas, nos recusamos a dar mais um passinho porque não queremos trocar de encoxadas. Convenhamos: temos um baita trabalho pra conseguir encoxar alguém (ou ser encoxado) e, quando a intimidade está próxima de chegar, gritam a bendita frase, como se fôssemos uma quadrilha de festa junina na hora de trocar de par. Assim não dá. Relacionamentos líquidos têm limites: queremos vínculos!

“Só um passinho.”

Afinal, nosso objetivo secundário (lembrando a prioridade das encoxadas) é atrapalhar a passagem de outros passageiros. É maldade mesmo. Freud disse. Nietzsche também. Somos maus, pô. É super possível abrir espaço para aquele colega que pretende chegar à porta nos dois segundos que lhe restam, após perceber segundos antes da parada que (creiam!) chegou seu ponto. Se não der para passar pelo lado, vai por cima, “só um pulinho”, talvez. Ou por baixo, abre as pernas, quem sabe rola um chamego? Super possível, mas somos inerentemente maus. Queremos atrapalhar todo mundo mesmo.

“Só um passinho.”

Até porque, não importa se fomos até o ponto final para viajar confortavelmente. Nossa obrigação ética (moral e o escambau) é abrir alas para o amiguinho que pegou o bonde andando e quer sentar na janelinha. “Só mais um degrau pra fechar a porta”, diz, sorrindo, o simpático motorista. Homem de bem (mulheres são raras, por que será?), jamais andaria com as portas abertas. Preza pela nossa segurança. Pena que no degrau de cima já encontram-se 234 pessoas (talvez 233, estava meio atordoado) e não dá pra subir. “Só saio quando conseguir fechar a porta”. Mas não é um gentleman este motorista? Cabe aos passageiros se entucharem só mais um pouquinho. Quem precisa de dignidade?

São Paulo, 05 de novembro de 2013