Uma dor

 

Mal o sinal soara e os alunos estavam em suas salas.
Menos ele.
Vinha decidido em minha direção.
Tia, tô com uma dor, liga pra minha mãe.
Dor onde? Dor de cabeça?
Barriga. É dor de barriga.
Respire, vá com calma ao banheiro, lave o rosto e venha até minha sala que tentarei falar com alguém na sua casa.
Uma vizinha viria buscá-lo, era a segunda opção de emergência no prontuário.
Tia, voltei.
Sua vizinha vem te buscar logo logo, você está melhor?
Não, tia. Tem que ser minha mãe. Ela tem que me buscar. Minha mãe.
Ela está trabalhando, não tem como vir agora.
Se não for minha mãe, tia, não precisa.
Você está passando mal ou não?
Pausa.
Aqueles olhos encheram-se d’água.
É saudade da minha mãe, tia. Eu quero minha mãe. Quero abraçar ela.
Pedi um minuto.
Dois.
Três.
Fui informada que o aluno morava com a avó.
Pelos relatos mais detalhados, vida dura.
Consegui falar com a mãe.
Expliquei a situação e passei o telefone.
Com os olhos cerrados, segurando uma lágrima que não consegui, ele apenas ouviu a mãe no outro lado da linha.
Ao fim, suplicou.
Tô com saudade, mãe. É só isso. Vem me buscar. Quero te ver. Tô morrendo de saudade.
A conversa parecia ter encerrado e assumi novamente a ligação.
A mãe, agora com voz embargada, garantiu estar à caminho.
Urgência é urgência.
E aquela dor, na tenra idade, não era dor.
Era amor.
De mãe.
Saudade.

São Paulo, 14 de agosto de 2015