sobre eduardo

Muitos de nós, da #Rede, fomos contra quando a Marina anunciou o apoio ao Eduardo Campos. Queríamos a candidatura própria e estávamos frustrados pela impedimento da oficialização do nosso partido-não-partido.

Com o tempo, e aí posso falar apenas por mim, o Eduardo me conquistou. Extremamente aberto à opiniões e bem humorado, sempre nos recebeu bem e se colocou em defesa da #Rede e em repúdio aos impedimentos.

Com certeza haverão críticas às suas políticas, mas não há quem discorde que era uma pessoa incrivelmente generosa.

Só nos resta desejar força aos familiares dele e de todos que estavam à bordo.

o fim em linha reta

ao pensar no ontem desmorono. a frase e o olhar secos e precisos foram sedativos. não quero-te mais. ouvi já indisponível. não sinto-te mais. foi pesadelo aquilo tudo. voltarei pra ele. e você fique só. deixe-me! éramos nós deitados? não sabia. não sei. já soube? não desejo-te. ojeriza-me. quero o chão agora. no ar não dá mais. homem tu não é. falta traço postura tom. me rendo neste ponto. sou o avesso de homem e o contrário de mulher. você não é? qual seu tom postura traço? vem pra cá. vê-se em mim. então você é mulher? simples assim? não papeie, saia fora! vou-me, impreciso. onde vai, tão de pressa? oras, fugir de ti, que refuta-me! não refuto, vejo-me e temo.

fez-se gênero

posto de pronto onde não pertencia
fez póstumo sua escolha
o nome, imposto, desfez
em vez de definir-se
auto destituiu-se
de posições e perturbações

não tratava-se de trejeito
era íntimo e explícito
no armário não cabia
sem disfarce ou demagogia
muito além do que parecia

a violência fez sua parte
aliou-se: família, vizinhos, o mundo
foi porrada de todos os lados
genitálias sob holofotes
seqüelas inevitáveis
dores intermináveis
mas insistiu, porra!

bastada de humilhações
estancou o sangue
empoderando-se

da incerta convicção
estava certa da transformação
o dia em que sua fantasia
deixaria de ser novidade
pura e bela realidade
aceita sem disparidade

você

você me ata,
e desata
me sufoca,
e me dá ar
me larga,
e faz falta
me mata,
e revive
faz pó,
e remolda

não há palavras
que descrevam
expressem
transcendam
ou demonstrem

indizíveis sensações
experimento
por você
com você
em você,
só você

só um passinho

I have a dream. Eu tenho um sonho. Sonho em descobrir quem foi o(a) cobrador(a) gênio(a) que proferiu pela primeira vez a já célebre (e enfadonha) frase “só um passinho”. Sonho encontrá-lo(a) por aí. De preferência, dentro de um ônibus bem lotado. No calor. Chovendo. Com as janelas fechadas. Cheio de gente de saco cheio e cheia de sacolas.

“Só um passinho.”

Essa frase brilhante se espalhou com tamanha destreza que chego a acreditar que estes bípedes portadores de síndrome do pequeno poder têm razão e, de fato, ônibus são como coração de mãe: sempre cabe mais um.

“Só um passinho.”

Porque, sem dúvidas, nos recusamos a dar mais um passinho porque não queremos trocar de encoxadas. Convenhamos: temos um baita trabalho pra conseguir encoxar alguém (ou ser encoxado, para os mais libertos) e, quando a intimidade está próxima de chegar, gritam a bendita frase, como se fosse uma quadrilha de festa junina e estivesse na hora de trocar de par. Assim não dá. Relacionamentos líquidos têm limites: queremos vínculos!

“Só um passinho.”

Afinal, nosso objetivo secundário (lembrando a prioridade das encoxadas) é atrapalhar a passagem de outros passageiros. É maldade mesmo. Freud disse. Nietzsche também. Somos maus, pô. É super possível abrir espaço para aquele colega que pretende chegar à porta nos dois segundos que lhe restam, após perceber imediatamente antes da parada que (creiam!) chegou seu ponto. Se não der para passar pelo lado, vai por cima, “só um pulinho”, talvez. Ou por baixo, abre as pernas, quem sabe rola um chamego? Super possível, mas somos inerentemente maus. Queremos atrapalhar todo mundo mesmo.

“Só um passinho.”

Até porque, não importa se pegamos o ônibus lá no começo para viajar confortavelmente. Nossa obrigação ética (moral e o escambau) é abrir alas para o amiguinho que pegou o bonde andando e quer sentar na janelinha. “Só mais um degrau pra fechar a porta”, diz, sorrindo, o simpático motorista. Homem de bem (mulheres são raras, coincidentemente), jamais andaria com as portas abertas. Preza pela nossa segurança. Pena que no degrau de cima já se encontram 234 pessoas (talvez 233, eu estava meio atordoado) e não dá pra subir mais. “Só saio quando conseguir fechar a porta”. Mas não é um gentleman este motorista? Cabe aos passageiros se entucharem só mais um pouquinho. Quem precisa de dignidade?

enfim, o fim.

Sem firulas e afloramentos, este post vem para anunciar o fim do Negação Lógica. Pode parecer uma notícia óbvia, devido ao nosso recente hiato, mas só agora tomamos esta decisão.

Criado em 2009, por três amigos que achavam que faltava um espaço na internet para discutir política de forma descontraída, o Negação lógica superou as expectativas iniciais. Conhecemos muita gente bacana, discutimos vários assuntos espinhosos sem desrespeito. Acertamos, erramos, tropeçamos e o mais importante, crescemos muito junto com o site.

Apesar de continuarmos achando que falta este espaço na internet, não temos mais condições de continuá-lo com a qualidade que se faz necessária. E, se para o site permanecer no ar, fosse consequência diminuir o esmero, optaríamos por encerrá-lo. E é exatamente o que fazemos agora.

Esperamos que, dentro das nossas possibilidades, o site tenha cumprido bem o seu papel e que os amigos que conquistamos durante a jornada, não se percam com o tempo. Obviamente, sempre será muito fácil nos achar por aí. Afinal, a internet é grande, mas é instantânea. E com certeza, projetos paralelos surgirão.

Aproveito este mini-espaço para agradecer todas pessoas que direta ou indiretamente contribuíram para que o NL durasse o tempo que durou. Todos nossos colunistas, ouvintes, leitores, críticos, amigos e inimigos. Nos perdoem o clichê, mas sem vocês, nada faria sentido. Um agradecimento especial é justo ao Gustavo Guanabara e ao Marcelo Salgado. Estes dois, enquanto muita gente torcia o nariz, nos apoiaram e acreditaram que não éramos meros aventureiros. E temos certeza que não os decepcionamos. Quem sabe, quando tivermos condições físicas/temporais/humanas/capitalistas (ops, não resisti) voltemos de alguma outra forma.

634 posts, 2.166 comentários, 95 podcasts e 14 colunistas/colaboradores. Este é o inventário quantificável do Negação Lógica, que a partir deste momento, oficialmente, encerra as suas atividades. Mas o legado intangível não é possível mensurar. Foi bom enquanto durou e só teremos boas recordações de tudo que ele nos proporcionou.

Até logo!

(Update: criamos uma pasta no Google Drive com todos os arquivos do podcast, baixe e compartilhe a vontade ;) )

invasão

a sua obsessão em ser
plena
independente
individual

machuca
a minha obsessão em ser
junto
complemento
transcendental

sobre as manifestações em são paulo

charge-manifestacao-midia-sao-paulo-passagem

O preço do tomate. A copa das confederações. A visita do Papa Francisco. E todos os outros assuntos que a mídia abraça com amor, carinho e dedicação foram postos de lado na última semana, para dar espaço aos comentários mais diversos sobre as manifestações contra o reajuste dos valores do transporte público na cidade de São Paulo (e em algumas outras cidades do Brasil, chamando menos atenção).

A maioria dos brados retumbantes criminalizam as manifestações, junto com as organizações e movimentos que foram, inevitavelmente, vinculados aos protestos. O Movimento Passe Livre e alguns partidos de esquerda (PSTU, PCO e PSOL), apesar de não se colocarem como “organizadores” dos protestos, participam ativamente na mobilização das pessoas pelas redes sociais e com a distribuição de panfletos nas filas de ônibus, catracas dos metrôs e outros locais de grande circulação de pessoas. Pessoas que utilizam o transporte público, preferencialmente.

Este, inclusive, é um ponto importante durante a análise da cobertura da mídia. Obviamente, a classe média que não faz uso do transporte público também é bem vinda nas manifestações. Afinal, a manifestação ideal será quando não apenas as pessoas diretamente interessadas se mobilizarem, mas quando houver uma consciência coletiva da necessidade de algo, independente dos interesses pessoais. Mas como estamos longe do ideal, vemos nas ruas uma minoria, dentro desta maioria que faz uso do transporte público. É uma minoria com mais acesso à educação. Uma minoria que talvez tenha um bom celular (“marginal com iPhone na mão e Nike no pé, badernando por 20 centavos, um absurdo!”, gritam os apresentadores sensacionalistas de TV). Mas uma minoria que USA O TRANSPORTE PÚBLICO.

Não é possível que uma pessoa, em sã consciência, utilize o transporte público na cidade de São Paulo e não considere R$3,20 um absurdo. A questão não são os R$0,20 de aumento. Isto foi apenas o estopim. R$3,20 é injusto, R$3,00 já era injusto. Não posso garantir que é possível chegarmos ao “passe livre” (transporte gratuito, pelo menos para estudantes e idosos), mas já seria de grande valia se o governo disponibilizasse os dados detalhados do custeio do transporte. Incluso aí, os gastos com manutenção, pagamento de salários, investimentos e lucro das empresas concessionárias. Principalmente, o lucro das empresas concessionárias. É o mínimo.

O que mais irrita alguns críticos é o trânsito causado pelas manifestações. Os jornais, nas rápidas e tendenciosas entrevistas com a população, sempre mostra alguém (dentro do seu carro) reclamando que levou horas para chegar em casa. Que apoia qualquer tipo de manifestação, desde que as mesmas não atrapalhem o direito de “ir e vir”. Como se a luta por qualquer melhoria no transporte público também não fosse parte do exercício do direito de ir e vir.

Se determinado protesto atrapalha o trânsito: ótimo. Atingiu uma meta inicial. Porque o objetivo é chamar a atenção. Se a manifestação não interromper o modorrento e repetitivo dia das pessoas, ela será inócua. Ninguém prestará atenção. É tão óbvio que dá vergonha de ter que explicitar. É importante informar aos desinformados que a Constituição nos garante o direto de livre manifestação, nas vias públicas, inclusive. Onde que os Caras Pintadas chamaram atenção? Alguém acha que o movimento das Diretas Já foi no Parque do Ibirapuera? Que os manifestantes sitiaram a praça Benedito Calixto? Foi em vias públicas, meus caros. Em vias públicas.

Outro argumento interessante, pra não chamar de imbecil, é o de quê há hospitais nas regiões dos protestos. Que isso prejudica a locomoção de ambulâncias e, consequentemente, pode custar vidas de inocentes doentes que precisam de acesso rápido aos hospitais. Antes de falar sobre isso, invoco o pai dos burros, mais conhecido como Aurélio (ed. 2012), para uma leve definição de falácia:

“2. afirmação falsa ou errônea”

Simples, não? Pois se trata exatamente disso. Com essa falácia, espalhada não apenas pelas redes sociais, mas também por aqueles apresentadores sensacionalistas citados outrora, a natural solidariedade das pessoas aos enfermos e necessitados sobrepõe a lógica e um argumento estapafúrdio como esse vira verdade absoluta na boca dos pseudo-indignados. Talvez, seja necessário lembrarmos o óbvio: o que atrapalha as ambulâncias de chegarem aos hospitais não são as manifestações, e sim o trânsito. Trânsito este que já é comum na cidade. Foi exatamente por isso, que algum gênio desconhecido inventou a sirene. Ouso afirmar, inclusive, que os manifestantes abririam espaço mais rápido para uma ambulância do que os carros engarrafados. É uma questão logístico-espacial, acho.

Um último ponto, mas não menos importante, é o já famoso vandalismo das pessoas. Essa gente degenerada e violenta que destrói a cidade, enquanto a gloriosa polícia tenta defender nosso patrimônio. Esses jovens vagabundos, que querem baderna e destruição, enquanto a polícia defende nosso direito de ir e vir, indo e vindo com balas de borracha e bombas de efeito moral. Essa ratataia periférica que ousa incomodar o centro da cidade, por causa de míseros 20 centavos, ante aos heroicos policiais, defensores da paz e livre convivência.

Não estava em todas as passeatas, mas nas que fui, e pelo que alguns colegas presentes me contaram das outras, quem normalmente inicia a violência física é a polícia. Grito e xingamentos são comuns nas manifestações. Muitas vezes, esses xingamentos são contra a polícia, sim. Isso é comum. Principalmente quando eles formam a formosa barreira para impedir os manifestantes de chegarem a algum lugar.

O problema é que o ego da corporação policial (principalmente, a paulista) vai além da estratosfera. Quando são ofendidos, usam da força bruta que detém, legitimada pelo Estado, pra meter porrada em quem estiver pela frente. Isso é, no mínimo, inadmissível. Não que seja mega bacana e divertido xingar policial. Me parece, até, um desperdício de energia. Mas responder grito com bala está longe de ser eficaz para “evitar a desordem”. Atiça, inclusive. As ações geram reações e a polícia militar sabe bem disso. Os governos do estado e prefeitura também sabem.

O que há de interessante nas manifestações de 2013, diferentes das de 2011, é que, ao invés de diminuírem o número de participantes, está aumentando. O segundo ato foi maior que o primeiro. O terceiro, maior que o segundo. O quarto, maior. E o quinto, na próxima segunda feira, promete ser maior ainda.

Talvez não dê em nada. Talvez a passagem do ônibus/metrô suba ainda mais. Talvez, como sempre, os jornais mantenham o foco na minoria que aproveita do movimento pra destruir algumas vidraças, enquanto uma maioria pacífica e escandalosa grita no vácuo da mídia independente e das redes sociais. Mas nós temos câmeras. Tiraremos fotos e faremos vídeos. A polícia não conseguirá destruir tudo. Não temos o que esconder. E se as imagens vierem a público, o próprio público poderá tirar suas conclusões, antes do Jornal Nacional começar.

Enquanto a mídia e o governo fingirem que é uma causa dispersa e ilegítima, ajudará o movimento. Porque, desta vez, é uma causa coletiva e legítima. As pessoas que estão ali acreditam. Não são ingênuas. Sabem que o preço não reduzirá imediatamente. Mas o diálogo e a reflexão precisavam de um ponta-pé. Nem que seja em troca de balas de borracha e bombas de efeito moral. Vamos gritar e gritar. E se a tarifa não baixar, a cidade vai parar. (Ok, a cidade já para todo dia por causa do trânsito. Precisamos de um slogan melhor…)

difudê

as pessoa tem as manha de me infurecê
sei lá porquê
é assim, o tempo todo
dia e tarde
não espera anoitecê

foi meu lápis a caneta e a tesoura
pra quê me devolvê!?
tocou o fone. um, dois, três
ok, vô atendê
chego lá, parou, que ódio
dá vontade de batê

puta fila, tô com pressa
vem fulano, vem chegando
fura a fila, desgraçado, lazarento, pqp
dô porrada, dô barraco, chamo os hômi
o que fazê?
alguém precisa resolvê
três por quatro, o cara é grande
é melhor eu nem mexê

saio às cinco
que beleza, finalmente coisa boa
desse jeito, chego cedo
só assim pra espairecê
choveu muito, cidade pára
trânsito veio me prendê
ai caraio, assim não dá
o que mais pode acontecê?

chego em casa
som estranho
uns gemido percebi
minha esposa, impossível
como pode? deixa eu vê
chifre ok, me acostumo
ninguém precisa nem sabê
tanto faz primo, truta, amigo
mas com meu pai é difudê

escrevo

não escrevo por mim
escrevo pelos escritos

eles têm vida

me usam
abusam
se lambuzam

mas no fim
são só escritos