Sobre política e moralidade

Vamos pensar na frase do Marcelo Odebrecht. “Não existe ninguém no Brasil eleito sem caixa 2”. Mano, olha essa frase: “Não existe ninguém no Brasil eleito sem caixa 2”. Impactante, né? É um exagero, óbvio. Mas olha essa frase. Não fui eu quem disse. Foi um dos caras acusados de financiar a porra toda. Tá preso e quer sair, é claro. Mas não se diz isso sem certo conhecimento de causa. Tem que rolar umas provas e tals. E, convenhamos, quem não sabia? A imprensa? Os partidos? Os cidadãos? Todo mundo sabia. É só botar reparo.

Tem o PSOL. Fica sempre no topo do ranking do Prêmio Congresso em Foco. Coisa séria. Confiável. Eles estão sempre lá. Os melhores deputados. E parece que não aceitam financiamento empresarial mesmo. Fazem as campanhas na unha. Na militância. Militância. Já ouviu falar nisso? Um povo que realmente acredita em um projeto político, dedica suas horas livres para isso. É bonito de ver. Dá vontade de votar só neles. Só neles. Mas. Sempre tem um mas. Mas. Parece que eles são aquela exceção que comprova a regra. O PSOL é a exceção que comprova a regra. Há outras exceções, tenho fé. Mas são, repito, exceções.

O PT e o PSDB entraram no jogo. De cabeça. Pensaram. É assim que elegem-se no Brasil? Então assim nos elegeremos. E foram lá. Fizeram tudo como mandava o figurino. Dentro desde jogo sujo. Mas elegeram-se.

Porque, seguinte: são QUINHENTOS E TREZE FUCKINGS DEPUTADOS FEDERAIS. Mais uma porrada de senadores, governadores, deputados estaduais, vereadores e prefeitos. Todo esse povo eleito com a força da GRANA. Não é militância, não. As minorias então: fodam-se. Se vira aí. Tem que cavar voto. É voto por voto. Trocar ideia. Convencer as pessoas. E mano, ter cinco deputados com sensibilidade social é bonito. Mas não serve pra nada. Nada. Na hora de votar é contar cabeça. O voto de um deputado da envergadura de Ivan Valente tem o mesmo peso dos votos de escrachos como Eduardo Cunha. Isso para ficar no que já foi condenado. Aliás, bondade minha. Porque o Cunha foi eleito presidente da câmara, o que o dava ainda mais poder (tipo aceitar processo de impeachment sem crime de responsabilidade). Não vou nem falar quantos votos recebeu o Chico Alencar na última vez que candidatou-se à presidência da Câmara. Vergonha alheia define. Pelo menos Cunha foi cassado e tá preso. Mas ele é do grupo do enriquecimento pessoal. Chegarei neles depois.

Minha namorada fica brava comigo quando cito Caetano. Reclama que ele sempre aparece do nada nas conversas. Nas playlists. Que sou fixado no homi. Ela sempre tem razão, mas teimo e cito-o: “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”. No fim, filhão, é ela. A GRANA. A grana que ergue e destrói coisas belas é a mesma grana que elege os canalhas e os bem intencionados. GRANA. Por isso a emergência da reforma política e eleitoral. Mas não esqueçamos quem são os beneficiários de um sistema movido pela GRANA: os próprios parlamentares eleitos sob este sistema. Que, vejam só, coincidentemente, são os que precisariam fazer as reformas. Você acredita em milagre?

Mas voltemos aos petistas e tucanos, que olharam para o cenário e cravaram: ou a gente entra no jogo ou nunca teremos números para passar as leis e programas que acreditamos. É bem simplista mesmo. Tem que eleger dezenas de parlamentares e ainda fazer aliança com dezenas de salafrários. Afinal, eles foram eleitos. Ninguém governa sozinho. Aqui entramos nas discussões de cunho moral. Do tipo “não devemos nos aliar aos canalhas”.

O problema é que nos anos 1990 o PT apresentou-se como paladino da moralidade (nos últimos anos foi o PSDB). Sempre. Esperava-se mais deles. Era nossa esperança, pô. ELES NÃO TINHAM O DIREITO DE SE CORROMPER.

Fala-se de corrupção como se corruptos fossem seres de outro planeta. Como se alguém fosse “a favor da corrupção”. Você é a favor da corrupção? Nunca vi ninguém declarando-se a favor.

Ainda mais nós, seres incorruptíveis. Nunca pirateamos nada. Nunca sonegamos imposto. Nunca ultrapassamos um sinal vermelho. Nunca roubamos nem uma bala nas Americanas. Nunca sentamos no assento preferencial. Nunca fizemos nada que pudesse ser enquadrado como crime. Nada. Nunca. Esses políticos vieram de Vênus. Lá sim, tem um monte de corruptos.

Veja, não quero dizer que SOMOS TODOS CUNHA. Não, não e não. Este tipo de bandido – que desvia dinheiro para trustes na Suiça e financia as vidas de luxo de seus familiares – tem mais é que ir direto pra jaula. Apodrecer lá mesmo.

Agora, ativa o modo malícia aí. Todo mundo tem o modo malícia. No modo malícia você faz vistas grossas para determinadas imoralidades (e às vezes faz uso delas) por acreditar que o fim pode justificar o meio. Sabe quando o policial dá um tiro na cabeça do rapaz que fez a namorada de refém? Então, tipo isso. É arriscado? Óbvio. É crime? Pode ser. Se aquela arma estivesse descarregada? Se o cara nunca fosse atirar? Mas ativa o modo malícia aí, pô. O que você faria? Você é o sniper. Atira ou não? Fácil decidir?

Claro que o uso desta analogia é exagero. Mas é pra ser exagerado mesmo. Tem que ficar bem claro que trata-se de uma questão moral. E o maior erro que estes partidos cometeram foi um dia declararem-se exemplo de moralidade. Como se qualquer ser humano pudesse sê-lo. Não podemos. Tem vários outros erros. Mas este foi o que cavou aquela cova ali na frente. Porque nada desperta mais o lado obscuro do ser humano do que APONTAR as imoralidades dos outros. Na maioria das vezes, estes apontamentos dizem mais é sobre os que acusam. Homofóbicos no armário. Machistas inseguros. Gordofóbicos gulosos. Viu a lista do Fachin? Sabe quantos ali foram nas “passeatas contra a corrupção”? Dezenas. Corruptos contra a corrupção. Freud explica e explica bem.

A lista de críticas aos governos petistas são enormes. Ok. Mas qualquer pobre (quiçá a própria classe média) que viveu as transformações dos últimos 20 anos no Brasil sabem de onde vieram as migalhas. Nunca tivemos um governo do PT. Nunca. Tivemos gente com estômago suficiente pra negociar com o PMDB. Este sim, controla o país há décadas.

O FHC teve estômago e conseguiu. Lula teve estômago e conseguiu. Dilma tev… Não. Dilma não teve. Dilma quis mandar o Cunha tomar no cu. Dilma nomeou Graça Foster porque soube do rombo que estava sendo cravado na Petrobras. Pode-se dizer que devia ter denunciado antes. Que qualquer não-denúncia é conivência. Mas vamos pro modo malícia de novo. Nada é tão simples. Política não é para amadores. Não dá pra vir a público e dizer “fiquei sabendo que fulano tá roubando a Petrobras, viu?”. Não dá. Tem que deixar a polícia investigar. Leva anos. É foda. Dá desânimo. A Lava-Jato ainda não cassou ninguém. Prendeu um ou outro, mas os que têm foro privilegiado começam a ser alcançados agora. Lembrando que a Operação Lava-Jato é coisa grande. Muita gente envolvida. Tem gente fazendo um serviço em favor da democracia. E tem os que usam de vazamentos seletivos para fazer política. Várias críticas, mas está andando. Melhor que nada.

Parece óbvio que Dilma tinha conhecimento de mais mutretas no seu governo do que poderia lutar contra. FHC também deve ter feito vistas grossas vez ou outra. Lula então, dá até dó. Todo mundo o cita. Ele era chamado de “amigo” na tal lista da Odebretch. Mas não tem um centavo em nome dele. Nada. Ninguém consegue provar nada. Falam em dinheiro vivo. Sério. 40 milhões em dinheiro vivo. O povo perde a noção. Nossa polícia federal deve ser muito burra. É só entrar na casa do Lula e olhar embaixo do colchão. Deve estar lá. 40 milhões em dinheiro vivo. Quem nunca?

E veja, não preciso defender o Lula. Ele tem ótimos advogados para isso. Só me parece inócuo (e injusto) este linchamento público. Se o crime for comprovado é só o Sérgio Moro mandar prender. E convenhamos, se for tão bandido assim, vão provar. Ou seria Lula o gênio do crime?

É absolutamente compreensível que a população sinta-se traída e molestada toda vez que aparecem desvios de dinheiro público. É só olhar as filas dos hospitais. As escolas sucateadas. A insegurança generalizada. Não tem defesa para roubo.

Mas não podemos – enquanto sociedade, justiça, Estado e o escambau – tratar a mãe de família que rouba um pacote de arroz do mercado da mesma forma que tratamos um milionário que faz uso de trabalho escravo em suas empresas. Hoje tô forçando nas analogias.

O nosso maior problema são as campanhas eleitorais e continuamos batendo panelas para petista e palmas pra maluco. E no fim, escancaram-se três fatores que, juntos, são perigosíssimos.

Primeiro, o extremo ódio ao PT originado neste moralismo de araque e elevado a níveis estratosféricos por uma imprensa condescendente.

Segundo, uma polarização milimetricamente planejada, do nós contra eles. Coxinhas contra petralhas. PSDB contra PT. Que só favorece a mais raivosa das direitas, sempre pronta pro bote.

Terceiro, a negação da política, também motivada pelo ódio ao PT. Explico: até o mais ingênuo dos moralistas tem autocrítica suficiente de cobrar coerência de si mesmo. Aí quando fica claro que caixa dois de campanha, pedaladas fiscais e compra de votos no congresso são praxe em todos os governos, as pessoas precisam optar. Ou admitem que problemas sistêmico são problemas sistêmicos e NÓS FAZEMOS parte deles; ou partem para o “todo político é bandido” e abrem espaço para aqueles que dizem-se “não políticos”. Tipo generais do exército, sabe. Ou empresários. Ou uma aliança deste dois últimos. Cruzes.

Ah, as aulas de História.

Tão necessárias e daqui a pouco nem elas mais teremos.

Segue o enterro.

Crônica de um nerd procrastinador

Ligo o computador para montar a prova do bimestre.
Nossa! Esta Área de Trabalho está muito bagunçada, arrumarei.
Péraí, ainda não fiz o backup da semana, farei agora.
Oxe… Que lenta a transmissão de arquivos, deixa eu fazer uma varredura.
Vixe, o HD está todo desfragmentado, melhor formatar.
Putz, posso aproveitar e já colocar um dual boot, né?

7 horas depois: caralho!
Meia noite e ainda não fiz a prova…

São Paulo, 11 de junho de 2016